A disputa de Barcelona
rabi Moshe ben Nachman (Nachmanides) x frei Pablo Cristiani. representação da disputa de Barcelona.

rabi Moshe ben Nachman (Nachmanides) x frei Pablo Cristiani. representação da disputa de Barcelona.
Para redigir este texto consultei fontes judaicas e não judaicas, textos históricos de acadêmicos renomados e tentarei colocar as referências ao final da página. Falamos do ano de 1263 da era comum, onde a igreja católica mandava em meio mundo e os judeus viviam sob estes governos.
Os judeus, expulsos de sua terra natal, viviam em países que menos lhes oprimiam.
A Península Ibérica era um destes lugares, até certo momento da história.
No século 13 ela foi marcada pela diversidade cultural, social e política. Ali, então, a comunidade judaica encontrou tranquilidade por algum tempo, depois de perseguições sofridas em outras regiões.
Mas porquê do debate?
Bom, era algo comum entre acadêmicos, filósofos etc desde o dominio grego no Oriente Médio.
Os "debates" entre religiosos, cristãos x judeus, eram comuns em todo o dominio da realeza cristã, onde o papa era a palavra final. Acontece que este encontro foi diferente. Enquanto os anteriores eram mais parecidos com inquéritos de cristãos à judeus, neste o rabino Moshe ben Nachman tinha o respeito do rei da região. Rei James I de Aragão, que admirava e respeitava o rabino.
Nachmanides, como ficou conhecido nosso rabino, era encarregado das questões judaicas do reino. O debate entre religiões era importante só para os cristãos, pois quando contrariados eles tinham a prerrogativa de punir os opositores. Neste caso quase foi diferente, rabi Moshe pediu ao rei diretamente que lhe desse total liberdade de expressão. O pedido foi atendido, por parte do rei mas não da igreja. O rei neste período era também um embaixador da igreja, portanto em caso de derrota do representante da igreja no debate haveria consequências para o rabino.
O oponente do rabino Moshe foi o frei pablo cristiani. Um apóstata, judeu convertido ao cristianismo, que conhecia os textos talmúdicos. A disputa foi dividida em 4 dias, o foco se deu em torno do messianismo, óbvio. Pablo acusava os judeus de terem matado o messias, argumentava que o Talmud não era mais válido pois o messias trouxe uma nova aliança, que é o novo testamento. Caminhos comuns de argumentação seguidos até hoje.
Sobre os judeus terem matado JC, é curioso observar que naquela época o dominio era romano e os judeus não podiam executar ninguém, nem o judeu que transgredia a lei judaica podia ser executado pelo tribunal judaico. É só um adendo lógico que precisei incluir.
O ápice da disputa se deu em torno do texto do profeta Yeshaiahu (Isaías), onde Nachmanides argumenta que as profecias messiânicas não se cumpriram em Yeshu.
Nachmanides usa o texto em **Yeshaiahu 2:4** "Uma nação não levantará espada contra outra, nem aprenderá mais a fazer guerras." Tal profecia ainda não se cumpriu, afinal violências e guerras são o que mais vemos, ainda mais por mãos dos cristãos logo após a revelação de seus messias.
Rabi Moshe segue afirmando que o messias judeu ainda está por vir e que ele não morrerá pelas mãos de seus oponentes. Ele virá e promoverá a PAZ ENTRE TODOS OS POVOS DA TERRA.
Para os cristãos, o texto em Yeshaiahu fala de um servo sofredor, morto por seus oponentes.
Isso seria o suficiente para explicar a morte de JC. Rabi Moshe traz então a informação de que no Talmud não há menção de um messias morto pela mão de seus oponentes. Rabi Moshe mostra que o texto em Yeshaiahu que fala do servo sofredor na verdade fala do povo judeu, subjugado e dominado por outros povos. Questionado sobre isso por pablo cristiani, o rabino responde: "É verdade que nossos mestres, de memória abençoada, nos midrashim, interpretaram, de forma alegórica, que a passagem fala do messias.
Mas nunca disseram que o messias seria morto pelas mãos dos inimigos. Vocês nunca encontrarão em qualquer literatura judaica, seja no Talmud ou nos Midrashim, que o messias, filho de David, algum dia seria morto, ou que seria traído e entregue aos seus inimigos, ou que seria sepultado entre os perversos, pois até o vosso messias, criado por vocês mesmos, não foi sepultado entre os perversos. Se quiserdes lhes darei uma excelente e detalhada explicação da passagem de Yeshaiahu.
Não há nada ali sobre o fato de messias ser morto, como aconteceu com o de vocês." Mas eles não quiseram ouvi-lo. Apesar de não ter sido um debate comum, todas as afirmações do rabino foram descartadas pelo frei, principalmente quando defendia não haver argumentos lógicos que consideravam não haver uma doutrina cristã no Talmud. Quando frei pablo não encontrava argumentos acusava o rabino de heresia. Analisando profundamente os relatos de cristiani e de Nachmanides percebe-se que ambos concordavam que judaísmo e cristianismo são culturas absolutamente antagônicas, diferente do que se pensa hoje.
Mesmo temendo as consequências rabi Moshe ben Nachman registrou sua versão do debate num livro chamado "Sefer Havikuah". Os dominicanos, muito exaltados, exigiram uma punição exemplar ao rabino por contrariar a fé cristã. O papa clemente IV ordenou que o rei de Aragão, James I, desse uma punição ao rabino. Este lhe condenou a 2 anos de exílio. O rabino foi então para Israel e não voltou após os 2 anos.
Deixou sua marca na Península Ibérica como um dos maiores pensadores ibéricos da literatura hebraica na idade média. Nachmanides faleceu em Akko, em 1270 EC.
Fontes bibliográficas: A INTOLERÂNCIA, foro internacional sobre a intolerância, Unesco, 27/03/1997. BASCHET, Jerome. A civilização feudal: do ano mil à colonização da América.
SP Globo 2006. MACCOBY, Hyam. O judaísmo em julgamento. Os debates judaicos-cristãos na idade média.. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
LE GGOFF, Jacque. Os intelectuais na idade média. Rio de Janeiro. José Olimpo, 2006. XIV ENCONTRO REGIONAL DA ENPUH-RIO.
Leandra Monique C de Souza e Dra Renata Rozental Sancovsky.
Que seja para a divulgação da unicidade do Eterno.
Pontos Principais
- rabi Moshe ben Nachman (Nachmanides) x frei Pablo Cristiani
- representação da disputa de Barcelona
- Falamos do ano de 1263 da era comum, onde a igreja católica mandava em meio mundo e os judeus viviam sob estes governos
- Nachmanides usa o texto em **Yeshaiahu 2:4** "Uma nação não levantará espada contra outra, nem aprenderá mais a fazer guerras."


