Leis e Costumes do 9 de Av (Tishá Be'Av) segundo Maimônides
Como viver o dia 9 de av segundo as leis práticas e diretas de Maimônides, nosso maior codificador das Leis da Torah após Moshê. Importante lembrar que quando RAMBAM nos trouxe o Mishnê Torah a sua intenção foi que todos os judeus de todos os lugares, classes sociais e costumes pudessem viver o judaísmo, sem medo de errar.

Esta primeira parte resume as leis, opiniões e diretrizes de Maimônides sobre a observância do dia 9 de Av, baseadas principalmente em sua obra Mishnê Torah, Hilchot Ta'aniyot (Leis dos Jejuns), capítulos 5 e 6.
1. A Natureza do Jejum e do Luto
Para o RAMBAM, o 9 de Av é o mais severo de todos os jejuns públicos.
Diferente de outros jejuns que começam ao amanhecer, o 9 de Av começa ao pôr do sol do dia anterior (8 de Av) e termina ao anoitecer do dia 9. É um dia de aveilut (luto) nacional pela destruição do Templo e pelo exílio.
2. As Cinco Aflições (Inuyim) Proibidas
O RAMBAM estabelece cinco proibições principais neste dia, semelhantes às de Yom Kippur, mas com foco no luto:
- Comer e Beber: Estritamente proibido desde o pôr do sol do dia 8 até a saída das estrelas na noite
do dia 9.
- Lavar-se: Banhar-se por prazer é proibido. Lavar apenas para remover sujeira real é permitido.
- Ungir-se: Aplicar óleos, cremes ou loções por prazer é proibido. Uso medicinal ou para limpeza é
permitido.
- Calçar Sapatos de Couro: Proibido. Sapatos de tecido, borracha ou outros materiais são permitidos.
- Relações Conjugais: Estritamente proibido durante todo o período do jejum.
3. Leis Específicas e Detalhes
Período de Observância:
- O jejum e as proibições começam no pôr do sol do dia 8 de Av e terminam na saída das estrelas na noite do dia 10 de Av. Maimônides nota que, embora o Templo tenha continuado a queimar no dia 10, a lei segue a tradição de que a maior parte da tragédia ocorreu no 9. Alguns têm o costume de não comer carne ou beber vinho até o meio-dia do dia 10, mas isso é um costume (minhag) e não uma lei estrita.
Doentes, Grávidas e Nutriz:
- O RAMBAM enfatiza que a preservação da vida e da saúde tem precedência. Se uma pessoa está doente (mesmo sem risco de vida imediato, mas com sofrimento significativo) ou uma mulher grávida/nutriz sente fraqueza extrema, elas devem quebrar o jejum. Não se deve ser excessivamente rigoroso a ponto de colocar a saúde em risco.
Estudo da Torá:
O estudo da Torah é proibido durante o 9 de Av, pois traz alegria (simchá). É permitido estudar apenas assuntos tristes ou relacionados à destruição e ao luto, como:
- O livro de Eichá (Lamentações).
- As Kinot (elegias tradicionais).
- Passagens de Yirmiyahu (Jeremias) sobre a destruição.
- Partes do Talmud que tratam das leis de destruição e luto (ex.: final do tratado Taanit).
- Pensar em assuntos de Torá que trazem alegria também é desencorajado.
Trabalho e Atividades Cotidianas:
O trabalho não é proibido de forma absoluta como no Shabat, mas deve-se reduzir as atividades comerciais e de lazer. Não se deve iniciar projetos novos ou importantes. O ideal é dedicar o dia ao
luto, à reflexão e ao arrependimento (teshuvá). Em muitas comunidades, segue-se o costume de não trabalhar até o meio-dia.
Comportamento Social:
- Saudações: Não se deve cumprimentar com "Shalom" ou outras saudações alegres. Respostas devem ser breves e sérias.
- Presentes: Não se dão presentes neste dia.
- Festas: É proibido realizar casamentos, festas ou qualquer evento alegre.
4. A Abordagem Filosófica de Maimônides
Para Maimônides, o jejum não é um fim em si mesmo, nem uma automortificação vazia. Os objetivos são:
- Despertar o Coração: Acordar as pessoas de sua letargia espiritual.
- Teshuvá (Arrependimento): Levar as pessoas a refletir sobre seus atos, reconhecer que os sofrimentos foram consequências de seus pecados e retornar a D'us.
- Memória Histórica: Manter viva a memória da tragédia nacional para que as gerações futuras não esqueçam as causas do exílio e se esforcem para corrigi-las.
Ele escreve: "O jejum é um meio para despertar os corações e abrir os caminhos do arrependimento para que nos lembremos de nossos maus atos e dos atos de nossos pais, que foram como os nossos, e que causaram essas calamidades."
5. Resumo Prático: Como Viver o 9 de Av segundo Maimônides
Do pôr do sol do 8 de Av até a noite do 9 de Av:
- Não coma nem beba.
- Não lave o corpo por prazer.
- Não use cremes/óleos por prazer.
- Não calce sapatos de couro.
- Não tenha relações conjugais.
- Não estude Torah (exceto temas de luto/destruição).
- Evite saudações alegres e festas.
- Reduza o trabalho e atividades de lazer.
- Atitude Interior: Dedique o dia à reflexão sobre a destruição do Templo e o exílio. Faça Teshuvá sincera. Leia Eichá e Kinot. Sinta a dor da perda nacional e espiritual.
Após o Jejum: Quebre o jejum com moderação. Alguns têm o costume de não comer carne ou beber vinho até o meio-dia do dia 10, mas isso é um costume adicional.
Baseado em Mishneh Torá, Hilchot Ta'aniyot, Capítulos 5 e 6
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Aqui na segunda parte estão os detalhes práticos, nuances e ramificações das leis do 9 de Av conforme apresentadas anteriormente com base no RAMBAM, sobretudo em Mishneh Torá, Hilchot Ta'aniyot e,
de forma complementar, no universo haláchico do luto.
O objetivo é mostrar não apenas a regra geral, mas também sua aplicação prática.
1. Comer e Beber
- Proibição total: comer e beber são proibidos durante todo o jejum.
- Quantidade mínima: qualquer quantidade é proibida para uma pessoa saudável.
- Água e demais líquidos: a proibição vale igualmente para água e qualquer outra bebida.
- Ingestão acidental: se alguém engolir água sem intenção, isso não equivale a comer ou beber deliberadamente, mas a pessoa deve redobrar o cuidado.
- Medicamentos sem sabor: em geral são tratados com mais leniência, especialmente quando necessários.
- Medicamentos com sabor: levantam problema maior, pois se aproximam do ato de comer.
- Necessidade de saúde: quando houver enfermidade, sofrimento significativo ou necessidade médica, a saúde tem precedência.
2. Lavar-se
- Proibição ligada ao prazer: o foco da proibição é lavar-se por conforto, prazer ou relaxamento.
- Água fria ou quente: a questão central não é a temperatura, mas o caráter de prazer do ato.
- Higiene necessária: é permitido lavar partes do corpo quando há sujeira real.
- Lavar mãos, rosto ou área específica: pode ser permitido quando necessário para limpeza básica, funcionamento normal ou remoção de sujeira.
- Banho completo por conforto: deve ser evitado, mesmo que a intenção seja apenas refrescar-se.
- Antes do jejum: não há proibição de banhar-se antes do início do 9 de Av.
3. Ungir-se com óleos, cremes e loções
- Prazer versus necessidade: a proibição recai sobre o uso por prazer ou deleite corporal.
- Uso medicinal: quando a aplicação serve para aliviar dor, tratar rachaduras, ressecamento importante ou outra necessidade médica, há lugar para permissão.
- Higiene: se o uso tiver finalidade funcional e não recreativa, a análise é diferente do uso cosmético.
- Desodorante: costuma ser tratado de forma mais leniente quando o objetivo é evitar mau cheiro e preservar higiene pessoal e social.
4. Calçar sapatos de couro
- Proibição principal: usar calçados de couro é proibido.
- Materiais permitidos: tecido, lona, borracha, plástico e materiais sintéticos são permitidos.
- Não é חובה andar descalço: a proibição não exige andar descalço, mas evitar o tipo de calçado associado ao conforto normal.
- Pequenas partes de couro: podem gerar dúvida prática, dependendo de qual parte do sapato é feita de couro.
- Sapatos ortopédicos: quando há real necessidade médica, a saúde e a prevenção de dor relevante têm peso decisivo.
- Dentro de casa: a proibição não se limita à rua; também se evita couro em casa.
5. Relações conjugais
- Proibição integral: relações conjugais são proibidas durante todo o período do jejum.
- Distanciamento de intimidade: por coerência com o caráter de luto, evita-se também comportamento físico íntimo que conduza à aproximação conjugal.
- Questões de higiene posteriores: quando houver necessidade de limpeza por motivo corporal, isso não entra na categoria de prazer.
6. Estudo da Torá
- Razão da proibição: o estudo regular da Torá alegra o coração, e por isso é restringido neste dia.
- Conteúdos permitidos: assuntos ligados à destruição, ao luto e ao sofrimento nacional ou individual.
- Exemplos clássicos: Eichá, Kinot, passagens de Yirmiyahu, trechos talmúdicos sobre a destruição, temas de luto e, em muitos contextos, Iyov.
- Conteúdos não apropriados: estudo haláchico comum, narrativas alegres, temas que despertem entusiasmo intelectual normal do estudo.
- Ensino público: não se devem manter aulas regulares, salvo estudo compatível com o espírito do dia.
- Pensamento e ocupação mental: idealmente, mesmo a ocupação interior deve corresponder ao clima de luto e reflexão.
7. Trabalho e atividades cotidianas
- Não é como Shabat: não há uma melachá proibida da mesma forma que no Shabat ou Yom Kippur.
- Redução do envolvimento cotidiano: o espírito da lei exige retração de negócios, projetos e atividades comuns.
- Evitar novos empreendimentos: não se deve iniciar tarefas importantes, grandes negociações ou trabalhos expansivos.
- Necessidade econômica: em casos de necessidade real, certas atividades podem ser toleradas.
- Costume de não trabalhar até o meio-dia: muito difundido, ainda que não formulado pelo RAMBAM como núcleo legal principal.
- Se não trabalha, deve ocupar o tempo corretamente: o dia deve ser usado para luto, reflexão, leitura apropriada e teshuvá, não para entretenimento.
8. Saudações e comportamento social
- Evitar saudações alegres: não se deve cumprimentar de forma festiva ou calorosa.
- Resposta contida: se for necessário responder, deve-se fazê-lo com brevidade e seriedade.
- Sem clima celebrativo: o comportamento social deve refletir o luto nacional.
- Presentes e festividades: não se dão presentes e não se realizam celebrações, casamentos ou encontros alegres.
9. Costumes posteriores e pontos que Maimônides não enfatiza explicitamente
- Sentar no chão ou em assento baixo: prática tradicional importante em muitas comunidades, mas não explicitada como núcleo da formulação do RAMBAM no resumo anterior.
- Ambiente escurecido ou luz reduzida: costume de luto posterior, adotado por muitos para reforçar a atmosfera do dia.
- Leituras litúrgicas comunitárias: a prática sinagogal posterior desenvolveu vários detalhes em torno de Eichá, Kinot e leituras públicas.
- Modificações na oração: o dia possui adaptações litúrgicas e tom penitencial próprios.
10. Conclusão geral
A principal ramificação prática das leis do 9 de Av segundo Maimônides está na distinção entre prazer e necessidade, entre conforto e luto, entre rotina normal e consciência espiritual. O dia não é apenas um conjunto de proibições técnicas; ele deve formar um estado interior de memória, humildade, reflexão e teshuvá.
Nota importante: para questões práticas individuais — especialmente saúde, gravidez, medicamentos, necessidade profissional ou circunstâncias especiais — o correto é consultar uma autoridade rabínica competente.
Baseado nas referências centrais de Mishneh Torá, especialmente Hilchot Ta'aniyot.

