Vida e Morte
A visão judaica sobre os ciclos da vida. Notório que em hebraico vida se diz no plural, HAYIM (transliterado), vidas.

Por quê nascer neste mundo?
O que há depois?
O que tem antes?
A literatura judaica, TANACH, Talmud e Cabalá, passeiam e evoluem entre uma compreensão multidimensional e o foco no corpo, na matéria.
Nas fontes antigas o corpo é um recipiente necessário para a santificação da alma, e não uma prisão como pensaram alguns filósofos gregos.
Há compreensões dentro da literatura judaica sobre conceitos como Sheol, Gan Eden, Guehinon, Guilgul e todas as questões interpretadas em todo o globo sobre vida após a morte, mas nosso foco aqui será na vida após a vida.
Fica evidente no judaísmo que o corpo é uma etapa, uma preparação para uma existência onde a separação entre o físico e o espiritual deixará de existir.
O rabino Aryeh Kaplan, de abençoada memória, em seu livro "Encontros entre o Céu e a Terra" traça uma trajetória linda e perfeita sobre as etapas da alma, fundamentado-se no Midrash, Talmud e Cabalá.
O Midrash Tanchumá diz que antes da concepção um anjo leva a alma diante de haKadosh Baruch Hu que ordena que esta venha a este mundo. A alma resiste, preferindo a pureza do mundo espiritual, mas é obrigada a descer.
No útero, o Midrash descreve um estado de iluminação total: "Uma luz brilha sobre a criança, ela olha e vê de um lado ao outro do mundo".
Durante o período de gestação, esta alma aprende toda a sabedoria universal, a Torah.
No entanto, no momento do nascimento um anjo toca seus lábios, como um sinal de silêncio, causando a fenda nasolabial, e ela esquece tudo.
O útero é um paralelo para o Mundo Vindouro (Olam Habá), mas em minuatura.
A alma está em um estado passivo de recepção da luz infinita.
Similar ao "pós" vida material, mas sem o mérito da conquista.
O nascimento, diz o Talmud em Nidá, é um trauma necessário para o feto.
O útero é seu mundo todo!
Sair de lá parece morrer, no entanto o que parece a morte é, na verdade, o nascimento para uma realidade muito mais ampla.
A descida para o corpo é uma descida para a ascenção.
A alma vem para este mundo para transformar o esquecimento em memória ativa através das suas boas atitudes neste mundo.
A "morte", do ponto de vista judaico, pode ser entendida como o nascimento para a vida verdadeira.
Assim como a alma passa por uma travessia no canal de parto para entrar na luz desta vida que conhecemos, a mística judaica descreve a morte como um novo parto.
No momento da morte, a Presença Divina aparece diante do indivíduo e a alma sai do corpo, com o mesmo esforço ou facilidade, (depende do mérito), com que entrou.
Neste momento trago um relato que o rabino Aryeh Kaplan traz no seu livro, citado acima, e segue:
"Uma vez ouvi uma história sobre um menino, filho único, que foi atingido por uma doença incurável.
Mês após mês a sua mãe cuidava dele, lia contos para ele, brincava com ele.
Ela tentava impedir que ele percebesse que seus dias estavam contados.
Mas, no decorrer das semanas, o pequeno piorava cada vez mais.
Olhava para fora pela janela do seu quarto e via as outras crianças, correndo e brincando.
Percebia que nunca mais seria como elas.
Começou a entender o que a sua mãe tanto tinha tentado lhe ocultar.
Ele sabia que ia morrer.
Um dia, sua mãe estava lendo para ele um trecho do Rei Arthur e Os Cavaleiros da Távola Redonda.
Ela lia sobre as gloriosas guerras do rei, sobre os muitos cavaleiros corajosos que morreram em nobres batalhas.
Então, olhou nos olhos do seu pequeno garoto e viu uma pergunta no rosto dele.
Silenciosamente fechou o livro.
O pequeno olhou para sua mãe e fez a pergunta tão temida por ela, a perguntava que queimava no seu coração inocente:
"Mamãe, como é morrer? Vai doer?"
A mãe desviou o olhar com os olhos cegos de lágrimas, não pôde responder.
Não podia sequer pensar.
Correu para a cozinha, como se o jantar estivesse queimando.
Sabia que essa pergunta era fundamental, que a sua resposta teria de dar conforto ao seu único filho durante as suas últimas semanas de vida, e também além da morte.
A mãe apoiou-se contra o armário da cozinha, com os dedos pressionados contra a madeira.
Numa oração sem palavras ela pediu a D'us a força necessária para dizer a verdade ao seu filho, e a sabedoria para saber o que dizer.
De repente, pareceu-lhe saber exatamente o que responder ao seu pequeno menino.
Voltou para ele, acariciou seus cabelos e disse:
Michael, lembra-se quando você era pequeno e brincava sem parar, o dia todo?
Quando chegava a noite, você ficava tão cansado que nem conseguia tirar as roupas.
Você ia até a cama da mamãe e adormecia.
Mas essa não era a sua cama, e você ficava nela só um pouquinho.
Na manhã seguinte, com muita surpresa, você acordava e percebia que estava na sua própria cama, no seu quarto?
Alguém - alguém que te amava - tinha cuidado de você, e por isso você estava ali.
Seu pai tinha vindo, com seus fortes braços, e levado você pra lá.
A mãe fez uma pausa.
Michael, a morte é assim.
Um dia acordamos e estamos em outro quarto, nosso próprio quarto, ao qual pertencemos.
Nosso Pai Celeste nos leva pra lá, porque Ele nos ama.
O pequeno sorriu pra mãe, com um brlho nos olhos.
Já que não haveria mais medo, nem preocupação, somente amor e confiança em seu pequeno coração, enquanto aguardava o encontro com seu Pai no céu.
Não perguntou nunca mais.
E algumas semanas depois, o pequeno dormiu, exatamente como sua mãe havia dito."
A mãe dessa história procurou uma parábola que o seu pequeno filho pudesse compreender.
Mas a sua resposta simples reflete a compreensão mais profunda dos pensadores mais sábios do judaísmo.
No talmud, Rabi Yaacov expressa este princípio fundamental:
"Este mundo é como uma antecâmara, que antecede o Olam Habá.
Prepara-te na antecâmara, para que possas entrar no salão dos banquetes." Avot 4:21.
Passamos então pela antecâmara, chegamos no saguão de entrada.
Abre-se uma cortina e estamos vivos novamente.
Quando um bebê nasce, ele rompe os limites do útero libertando-se para movimentar-se e sentir a nova vida.
Assim também é nesta vida, o terceiro estágio da existência, ficamos liberados da carga do nosso segundo útero, o corpo.
Sem preocupações, sem olhares vazios, sem costas curvadas ou braços cansados.
Sem medos infindáveis, sem a tortura do arrependimento, sem o coração apertado por lembranças ruins, tampouco rasgado pelo vidro cortante dos sonhos desfeitos.
Levantamo-nos, para nunca mais ficarmos confinados na estrutura material do corpo.
Agora, brilhantes e resplandecentes com a bondade do Criador da Vida.
Apenas para efeito didátivo e comparativo, o que segue:
- Útero, luz total e aprendizado passivo. O potencial e a pureza original.
- Nascimento, esquecimento e entrada no conflito físico. Início da jornada de mérito.
- Morte, recordação e retorno ao estado original. O parto de volta à realidade.
FONTES: TANACH, Midrash, Talmud, Zohar, Encotros Entre o Céu e a Terra (Aryeh Kaplan).
Pontos Principais
- luz total e aprendizado passivo.
- esquecimento e entrada no conflito físico.
- recordação e retorno ao estado original.
