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Torá

A Grandiosidade do Ego Pequeno

Uma reflexão sobre a humildade de Moshe como modelo de liderança: do palácio egípcio ao deserto, o maior profeta de todos os tempos nos ensina que a verdadeira grandeza reside em saber ouvir, delegar e renunciar às honrarias.

8 min de leitura5 de abril de 2026
A Grandiosidade do Ego Pequeno

O perigo do ego na liderança não é apenas anedótico; é apoiado por uma riqueza de pesquisa psicológica e organizacional. Um estudo publicado no Journal of Applied Psychology destaca que líderes com egos inflados tendem a demonstrar confiança excessiva em sua tomada de decisão, resultando em resultados mais pobres e diminuição da eficácia da equipe. Além disso, uma abordagem de liderança autoritária pode promover uma cultura de silêncio e conformidade, sufocando a inovação e a adaptabilidade. (trecho observado em forbes.com)

Desde o episódio em que Moshe observa algo sobrenatural entre arbustos, este mostra sua renúncia à honrarias. Mas vamos voltar alguns anos em sua história e observar que este comportamento não deveria ser comum a esta figura.

Moshe foi criado pela mais alta cúpula do Egito, pela filha do Faraó. Desde pequeno foi observado e admirado por demonstrar traços de uma criança diferenciada e, como neto do rei, destinado a herdar algo grandioso.

Certa vez, já em sua juventude, Moshe sai a observar o andamento das obras faraônicas e testemunha um egípcio espancando cruelmente um hebreu. Percebendo a fraqueza daquele servo hebreu, Moshe opta por intervir tirando a vida do egípcio agressor.

Este ato gera revolta, mesmo entre os hebreus, que temeram a gravidade do ato a partiram pra cima deste Moshe com palavras duras e, por fim, o delataram. Moshe, então, entende que deve se refugiar.

Agora na terra de Midiã, Moshe leva uma vida humilde longe de todos os holofotes que outrora eram apontados pra si na mansão real egípcia.

Aqui começam aparecer os traços de humildade de um grande líder, mesmo sem almejar esta liderança. Moshe podia ter voltado ao palácio e argumentado contra a acusação que receberia. Como membro da família real dificilmente encontraria dificuldades em ser defendido, este Moshe não queria privilégios.

Chegamos agora ao episódio em que iniciamos o texto, em que algo sobrenatural aparece a ele e o ordena a retornar ao Egito e liderar a libertação dos hebreus. Pronto, chegou a honra merecida! Não! Moshe recusa veementemente, argumenta que seu irmão Aharon é mais merecedor desta liderança que ele, que seu irmão fala melhor que ele, seu irmão sim é um líder!

Não tem jeito, é ele que deve ir. Mesmo contrariado ele vai. Vamos avançar agora nesta história pra pegarmos os pontos que realmente nos importam aqui, que são as demonstrações de humildade do maior profeta de todos os tempos.

Já libertado o povo hebreu, agora em sua trajetória no deserto, Moshe está lidando com grande número de questões do povo. São mais de três milhões de pessoas! Imagina o número enorme de litígios, questões de toda ordem. Ele tentando lidar com tudo isso sozinho, ficando horas e horas recebendo as pessoas e orientando sobre cada caso e caso.

No meio dessa situação aparece Yitró, seu sogro, e o chama pra conversar apresentando-o praticidade neste processo. Yitró traz a Moshe um esquema de nomear juízes sobre o povo, abrindo mão assim de tantas horas delegando direções aos casos que lhe vinham. Já aqui aparece a grandiosidade de um líder, delegar funções que deveriam ser suas a outrem é abrir mão de sua importância. É permitir que outros tomem decisões tão importantes que, na cabeça de um egocêntrico, deveriam dizer respeito somente a si. E mais, Moshe ouve um de fora, que nem passara por todo o processo que todos eles passaram.

No próximo episódio que demonstra grande humildade, Moshe é ordenado a delegar o sacerdócio a seu irmão, Aharon, quando ele mesmo deveria exercê-lo. Afinal é este Moshe quem sabe os detalhes do serviço a ser executado. O grande sábio da idade média, Hayim bem Attar, em sua obra Or haHayim, comentando a parashá Shemini descreve três traços de humildade e grandeza que Moshe demonstrou neste momento e transcrevo aqui:

1. Moshe agiu prontamente, Or haHayim comenta usando como base o verso que diz: "e foi no oitavo dia, Moshe chamou a Aharon…" veja lá o texto na íntegra. Implicando que logo pela manhã após receber a ordem Moshe agiu para executá-la e passar o sacerdócio para Aharon e os filhos.

2. Em vez de passar o sacerdócio passo a passo, demorando assim para concluir a tarefa, Moshe combinou todos os passos e executou o comando prontamente de forma que Aharon e seus filhos recebessem o sacerdócio imediatamente.

3. E, ainda, Moshe fez questão de que todos soubessem da situação. Observa Or haHayim que Moshe chamou, além de Aharon e seus filhos, todos os anciãos do povo para que testemunhassem a "troca de comando" digamos, sem qualquer sentimento de diminuição de si mesmo por não ser ele, ou seus filhos, os que oficiariam no Templo.

E, por fim, o momento crucial onde Moshe é informado pelo próprio D'us que não entraria na Terra de Israel naquele momento, que sua missão chegara ao fim. Moshe é instruído a passar a liderança a Yehoshua bin Nun, que também não era um de seus descendentes, e o faz prontamente e com toda honra.

Nestes episódios e muitos outros que narram a história do nosso povo sob a liderança deste grande Moshe fica evidente a humildade sob a qual viveu. Em tempos de tanta evidência, aparência, conhecimentos abundantes por toda a parte é fundamental ouvir.

Queremos cada vez mais nos fazer ouvir, tenho observado grande dificuldade das pessoas ouvirem as outras. Se estão em aula querem interromper o professor. Se assistem algo querem opinar, o tempo todo queremos deixar nossa marca, nossa opinião. Quando vamos ouvir por aprender puramente?

Pra concluir, deixo um trecho do Pirkê Avot:

"Shimon costumava dizer: Fui criado entre os sábios, e não encontrei nada melhor para uma pessoa do que o silêncio. O estudo não é a coisa mais importante, mas as ações; quem muito fala traz para si a ruína."

Excelente semana a todos!

Pontos Principais

  • Líderes com egos inflados tendem a resultados mais pobres e menor eficácia de equipe
  • Moshe renunciou aos privilégios do palácio egípcio escolhendo a humildade
  • A verdadeira grandeza está em delegar funções e ouvir conselhos de outros
  • Or haHayim destaca três traços de humildade de Moshe ao passar o sacerdócio a Aharon
  • O silêncio e a escuta são virtudes superiores segundo o Pirkê Avot
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